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29 novembro, 2008

Da mentira

Não conseguia esquecer. O que atormentava é que não eram as tormentas que não esquecia. Não esquecia o gosto, o cheiro, os pêlos, a boca. O olhar. Mas tocava-lhe a lembrança de uma forma que atormenta: amarelada. Pensava o quanto era ridículo não esquecer. Seus pensamentos se transformaram em uma série de divagações ridículas. Sabia o quão ridículo era tudo que se passava em sua cabeça. Então, com a consciência de sua ridícula consciência, disfarçava pensamentos. Para si e para o mundo. Disfarçava com opiniões encontradas em orelhas de livros, páginas de revistas, horóscopos. Sim, seus pensamentos eram mais ridículos que horóscopos. Acostumou-se. Pensadores, filósofos, autores de romance vagabundo. Lia tudo. Para dissimular a mente esverdiada do bolor. Fartava-se do pensamento alheio para ter assunto. E de pensamento em pensamento de outro alguém, esqueceu. Esqueceu de lembrar as verdades que sentira em tempos azuis. Esqueceu do mar de declarações carmim sem palavras, do olhar morno, da boca quente, dos pêlos, do cheiro âmbar, do gosto hortelã. Na espera em um farol qualquer da rua que não sabe o nome, com tranqüilidade de mente branca, olha para o letreiro iluminado do cinema na esquina escura. “O amor ensina a mentir”. Verdade.

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