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28 janeiro, 2010
Lilás
Vim dizer que sinto saudade. Não quero mais. Sinto muito. Só vim dizer. Saudade... Gosto da palavra. Por que inventaram palavra tão bela para uma coisa tão só? Será por isso única? Está explicado. A singularidade está para o sentimento ser só. E sem plural. A minha saudade tem gosto de sal. Dá sede. E vontade de comer doce depois que se prova, sabe? A saudade que te falo não sacia com lembrança. Sim. Eu lembro. Mas sinto saudade do que não aconteceu. Acontece. Acontece que meu coração ficou frio. E não quero mais esse negócio. Esse gelado no peito. Sem sangue vermelho e pele rosada. Não. Não é por você que sinto. Sinto por mim. É. A saudade é do que eu senti. Aquela formosa. A rosa. Que não se cansa de ter esperança. Bandido! Sai da minha vida. Pega tuas marcas, teus vestígios desbotados e sai. Sem olhar para trás. Chega! É só a lembrança de um vulto feliz. Este meu coração... Vagabundo! Foste parte da essência. Hoje és a essência do corte. Mas sou mansa. Não se preocupe. Minha função de viver que é feroz. Só vim dizer. Eu sei. Preciso aprender a ser só. A só ser. Por isso não quero mais esse negócio de você. Vai. Segue teu destino e rega tuas plantas. Suave é viver. Só viver... Já vai? Não. Espera! Deixa-me dizer. Ainda não terminei. Deixa. Deixa algo. Algo teu. Não leva tudo. Não leva tão a sério. Chega mais perto. Olha... Um raio de sol. Amanheceu! Eu sei. É muito tarde. Tudo bem. Então vai. Mas, vou te contar... Não quero mais esse negócio de você. Longe de mim! Só vim dizer que sinto. Só vim dizer. Olho para o céu onde a tarde morre. Lilás. Que contradição... Percebe?
Um comentário:
Deixar ir quando tudo o que queremos é pedir para que não vá, pensar quando só conseguimos sentir e parar de amar simplesmente porque chegou a hora, porque não há nada mais a ser feito, porque fizemos o que podíamos fazer e o escuro não foi embora e o sol nunca chegou...
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