Eu tinha uns 23 anos quando freqüentava aquele Centro que a minha mãe ia. Eu não gostava muito não... Apesar de respeitar o Kardecismo, nunca me identifiquei muito com a prática e as idéias deles. Nem era questão de crença, pois muitas encaixam no que eu acredito, mas to com preguiça de explicar até porque eu acho que Fé é coisa que não se explica. Mas eu ia com a minha mãe, às vezes. Tinha lá a Graça que é uma pessoa boníssima e de um carinho tão generoso comigo que dava gosto chegar lá. E tinha a Dona Pura. Pois é, o que escrevi até agora foi só pra falar da Dona Pura e da irmã dela que eu não lembro o nome. Na verdade, acho que era cunhada, mas não consigo lembrar o nome dela. Só lembro é das conversas que aconteciam antes da reunião começar e da Dona Pura, que nunca falava palavra nenhuma, mas era muito expressiva na sua mudez. E eu adorava quando chegava a Dona Pura e a cunhada dela. Acho que não me lembro do nome da cunhada porque nela eu reparava mais a conversa. Elas chegavam de bracinho dado e sentavam no cantinho da sala. Aí começava o cunversê. E a cunhada da Dona Pura falava de um tudo. E quando era coisa que deixava ela irritada, logo emendava no final da história: é um fogo, viu?! E eu ficava lá escutando e segurando a risada diante da reação da Dona Pura às histórias da cunhada. Ela se ria toda a cada desfecho, bom ou ruim, e colocava a mão na boca quando sentia um olhar de reprovação da narradora das histórias. Quando eram boas, os olhos da Dona Pura se arregalavam em sorriso largo e nessas vezes a cunhada terminava a história com a frase: é um máximo, não é?! E aí era uma timidamente expressiva risada só da Dona Pura entre uma história e outra. Às vezes ela fazia conta de interromper a narrativa da cunhada. Suspendia a respiração e erguia o corpo miúdo como quem toma coragem pra falar. Mas a cunhada nem ligava e aumentava um bocadinho o tom da voz para a Dona Pura se calar antes de se escutar o que pretendia dizer. E a Dona Pura, além do nome, tinha a cara do nome que tinha: cabelinho branco curtinho, uns zoião azul transparente, miúda no tamanho e nos gestos. Acho que era só por isso que eu ia lá. Pra ver a Dona Pura sorrir com os zoião dela e ouvir as tagarelices da cunhada. Aí que nem sei de onde e porque lembrei dessa história na minha cabeça hoje, mas sempre de quando em vez vejo a imagem da Dona Pura com o olhar de reprovação da cunhada quando a história era “um fogo, viu?!” E acho mesmo que acabou que eu escrevi essa história toda só porque hoje to achando o dia “um máximo”.
Um comentário:
ah que sintonia, dia 7 foi pra mim tbm "um máximo"! VIVAAAA! bjs
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