Páginas

27 janeiro, 2011

O corpo como escultura

Ao valer-se da tecnologia, cada vez mais presente e fundamental em nosso dia-a-dia, Stelarc integra a ciência e a arte ao próprio corpo. O resultado de seu trabalho instiga nossos sentidos e evidencia caminhos cada vez mais navegáveis na direção da quebra – e queda – das limitações humanas.

“A Arte torna a vida suportável”. Esta frase, atribuída ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche, pode contribuir para um dos diversos olhares que a obra do australiano Stelarc desperta. Em seus trabalhos, o artista evidencia como a tecnologia ultrapassa as fronteiras da experiência de nossa espécie. O homem caminha, cada vez mais, de mãos dadas com o ilimitado. Este antigo conhecido do Universo nunca antes tivera tão proeminente aproximação conosco.
A propagação do conhecimento pela tecnologia faz cotidiana – e muitas vezes banal – a absorção de fatos e informações. Não é o que acontece quando nos deparamos com algo como o que Stelarc propõe ao implantar uma prótese de orelha, originada a partir de cultura celular, em seu braço. Se por um lado podemos ficar chocados com a obra viva deste artista, em um olhar mais atento percebe-se que Stelarc torna a ciência mais suportável ao trazê-la para seu trabalho. Sua manifestação artística - exposta em carne, pele e luz - traz vida à teoria, poesia ao metódico, maximiza os sentidos e cutuca a condição humana do conhecimento.
Stelios Arcadiou, pelo pseudônimo de Stelarc, apresenta-nos uma visão futurista de nossa  espécie e nos instiga a perceber a máquina humana como ferramenta. O artista faz de seu corpo um painel da sociedade contemporânea. Neste ponto, a função do fazer artístico aparece diferente. Desde o Renascimento, em que a arte servia como propaganda religiosa, até tempos mais atuais, do século XX, quando inspirava críticas socias, como em Guernica, de Picasso. Stelarc evidencia que a bodyart - corpo como instrumento e painel – é uma das explorações artísiticas do novo milênio. Sugerindo  a integração do artista com a obra, em que a catarse artística nasce pela literal metamorfose. E cutuca.
Vale a reflexão sobre o quanto teremos que quebrar - de paradigmas, fronteiras, universos - para atravessar este período tão sem limites da era tecnológica e quântica que se estabelece com cada vez mais força. Nestes tempos, em que a tecnologia é tão presente e fundamental em nosso dia-a-dia, evidenciar e fundir a ciência à arte de forma tão radical me parece uma forma um tanto assustadora para o fazer artístico. As inovações tecnológicas nos colocam em um mundo rápido, sem fronteiras e de fácil acesso. O que deveria ser benéfico,  muitas vezes funciona como um amortecedor para os nossos sentidos que ficam preguiçosos com tão fácil alcance. Será preciso tamanho impacto para voltarmos a apreciar, simplesmente, o simples?  
Stelarc mexe com os nervos, ativa nossos sentidos e desperta ainda um certo incômodo de “instinto divino”. Sem querer esbarrar em questões religiosas, veja isto com um entendimento prático do poder de um Deus: o da criação. Fagulha que incide sobre todos nós. Acredito que o maior responsável por este aspecto seja algo que ainda nos diferencia das máquinas: o sentir. Até quando precisaremos de impactos tão contundentes para recuperar e reabsorver o que nos é tão intrínseco? Se é na arte que essa tão peculiar característica da raça humana encontra uma de suas mais evidentes traduções, ao ver uma orelha no braço de um homem como forma de arte, sinto que algo não está muito bem...

Um comentário:

Alvaro Domingues disse...

Excelente!