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07 agosto, 2013

Palpitação

Ela passa correndo por todos os passageiros que estão no ponto do ônibus (esperando...). Ela passa correndo e num quase salto estica o braço num gesto preciso para alcançar a mochila que ele carrega nas costas. Ele, já no segundo degrau do ônibus que acabou de parar no ponto, é puxado pra fora quase como se fosse mais leve que a mochila que carrega. Sai com espanto e fica mais assustado quando vira e vê que é ela quem o tirou da sua rota rotina. E começa a conversa do que parece ser um casal (namorados?) apaixonado (apaixonados?). Meio briga, meio recusa, meio contrários, intensos por inteiro. Daqueles momentos em que tudo precisa ser resolvido naquele segundo como se o mundo fosse acabar no minuto seguinte. Meu ônibus demorou pra chegar mais uns 20 minutos. Tempo suficiente para ver a briga transformar-se em lágrimas e depois em carinho, mesmo que ainda no meio da discussão. Quando subi, um último olhar para aquele instante eterno deles. No meu rosto, um sorriso contido-lua-crescente. Se vão ficar juntos... Meu palpite? Não. Não me permitiria esse falso romantismo de filme hollywoodiano. Mesmo porque a cena aqui é real, presenciada por mim hoje, quando ela o arrancou do ônibus alguns segundos antes do ônibus arrancar do ponto. O timing preciso da vida, com suas surpresas exatas sem roteiro, sem fala decorada, sem garantia de que vai dar tempo, sem garantia de que vai dar 'certo', nem lobby pra Oscar e que bilheteria nenhuma paga o valor que isso tem. Sem o romantismo fake de hollywood, meu palpite é que não vão ficar juntos. Mas, lembrarão desse momento pra toda vida. Mais que qualquer filme béstiséler que tenham visto no cinema. Ele talvez lembre da sua contrariedade ao virar-se e dar de cara com ela. E talvez ria. Ela talvez lembre de sua ansiedade e loucura ao puxá-lo do ônibus. E talvez ria. Talvez eles riam juntos da história, separados pela distância de um oceano, talvez... Talvez não se vejam mais depois que acabar a faculdade, ou nem estudem juntos, ou talvez fiquem juntos. Mas isso não importa. Até porque, depois que se vive um momento eterno assim, já se está junto pra sempre, independente da presença (tão efêmera quimera humana) dos corpos. Meu palpite.

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