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26 abril, 2007

Great Music!!

A banda inglesa Smoke City carrega no sotaque brazuca ao contar com a presença da brasileira Nina Miranda em sua formação. O resultado é uma mistura entre diversos estilos musicais que garantem o som agradável e inovador de seu trabalho.

Uma combinação de acid jazz e trip hop mesclados à brasilidade da bossa nova e do samba. Essa é a ousadia da banda Smoke City, uma das precursoras da New Bossa, ou Bossa Eletrônica. Formada em 1996, a banda inglesa conta com a fundamental participação da brasileira Nina Miranda nos vocais, que garante ainda mais autenticidade para a receita. O resultado dessa mistura pode ser conferido no trabalho lançado em 1997 pelo grupo, intitulado “Flying Away”, que ganhou projeção mundial. O segundo álbum da banda, Heroes of Nature, de 2001, não foi tão acolhido pela crítica quanto o primeiro. Após esse trabalho, cada um dos integrantes do Smoke City partiu para outros projetos.

Influenciada principalmente pela música de Sérgio Mendes, Toquinho, Vinícius de Moraes, Gilberto Gil, Tom Jobim e Gal Costa, Nina conheceu os outros integrantes por ser brasileira e gostar de MPB. “Mark Brown, o DJ , tecladista e programador do Smoke City, discotecava no clube que eu freqüentava em Londres, onde tocava reggae, disco, funk e música brasileira, o que é bem raro por aqui", conta Nina. "O Chris Frank, que toca guitarra, baixo, teclado e percussão, foi apresentado pelo organizador da coletânea "Rebirth of Cool'
[1]. Logo percebi que tínhamos muito em comum, pois ele também é fã de MPB”, acrescenta a cantora em entrevista à Folha de S. Paulo[2].

Foi Mark quem escolheu o nome Smoke City (Cidade Esfumaçada) para o trio. "Ele estava em Salvador (BA) para se encontrar com alguns músicos de percussão. Na praia ensolarada, ele pensava em Londres e na neblina que envolve a cidade. Além disso, tem tudo a ver com a nossa música, que é cheia de atmosfera.", diz Nina na entrevista à Folha.

O trip hop, uma das influências da banda, tornou-se praticamente um lugar comum dez anos depois que a banda surgiu. O som “lounge”, como muitas vezes é definido a mistura eletrônica Lo-Fi (Low Profile), toma conta do cenário musical com bandas como a norte-americana Massive Attack e a inglesa Portishead. Smoke City, no entanto, ainda diferencia-se ao mesclar o trip hop com estilos brasileiros. As letras trazem ainda uma dose generosa de sensualidade e ironia - e extrapolam as definições musicais se tornando referência em diversos estilos, inclusive no Trip Hop, embora esse estilo seja caracterizado como o Blues do Eletrônico, por ser carregado de boa dose de introspecção.

A música "Águas de Março", de Tom Jobim, ganhou o nome de “Joga Bossa Mix” e traz uma letra divertida e completamente diferente da original. Brinca com palavras em português, como abacaxi, surfista, sambista e banana, e suas respectivas traduções e sotaques para o inglês. “Foi uma boa maneira de mostrar a Bossa Nova. Tentei ser irônica, pois sei que as pessoas daqui (Inglaterra) conhecem apenas os clichês do Brasil. É uma brincadeira com as palavras. Além disso, a letra pode aumentar o interesse do público para a música brasileira, assim como aprendi francês depois de ouvir ‘Michelle’, dos Beatles", explica Nina na mesma entrevista concedida à Folha.

Algo parecido com a sensualidade bem-humorada do Smoke City, que pode ser conferido em “Underwater Love”, aparece bem mais acentuado na banda norte-americana Lovage, mas sem o dendê brazuca que torna o som da banda inglesa peculiar. Os Lovage são Nathaniel Merriweather (Dan the automator)[3]
, Mike Patton, Jennifer Charles e Kid Koala. O único álbum lançado pela banda foi "Music To Make Love To Your Old Lady By", de 2001, que tem como tema principal o ato sexual e todos os seus tabus e fantasias.

As letras e apresentações têm um tom de sátira e a parte instrumental é carregada de sensualidade, como acontece com o som do Smoke City. Apesar de não ser tão debochado quanto o trabalho do Lovage, o álbum Flying Away é carregado de ironia e sensualidade na mistura do acid jazz, trip hop e elementos brasileiros do Samba e da Bossa Nova.

A voz de Nina Miranda é comparada a de Nara Leão, pela delicadeza e suavidade do seu timbre. Bebel Gilberto, uma das referências da New Bossa, apresenta no seu segundo trabalho – “Tanto Tempo” (2000) – uma participação especial de Nina na faixa dois, “August Day Songs” e em “Tanto Tempo Remix” (2001) nas faixas “Chateau Flight Remix” (3), “Da Lata Remix” (10) e “King Britt Remix” (13).

Nina garante outras participações no decorrer de seu trabalho. Como no quinto álbum dos pernambucanos da Nação Zumbi, que leva o nome da banda, na faixa 11, “O Fogo anda comigo” e com Chico César, no álbum “Respeite meus cabelos brancos”, na faixa 12 – “Experiência”.

Essas participações atestam ainda mais a convergência do trabalho de Nina e marcam influências decisivas para seu mais recente trabalho “Lost in a moment”, ainda inédito no País. Acompanhada pelo compositor e produtor Dennis Wheatley, com quem forma a dupla Shrift, a cantora mostra mais uma vez experimentalismos, samba, bossa e o que mais couber no caldeirão. Instrumentos tradicionais, como celos e violinos, fazem contraponto saboroso com instrumentos que têm mais a cara do Brasil, como berimbau, tantã e reco-reco
[4]. O diferencial entre os dois trabalhos realizados por Nina está no conteúdo das letras. "O Smoke City era mais brincalhão, o Shrift é mais introspectivo", explica a cantora ainda à Folha[5].

New Bossa e Bossa Eletrônica

Chega de Saudade! O título do emblemático álbum de João Gilberto, que inaugurou a Bossa Nova no cenário musical brasileiro na década de 60, pode ser usado para expressar o surgimento da New Bossa, que aparece como um resgate do balanço e introspecção musical do gênero inspirador. A New Bossa começou com um projeto chamado Nouvelle Vague, na França, que recriava clássicos do fim dos anos 80 em versão Bossa Nova. Essa é a prova de que o fim cronológico da bossa não significou sua extinção estética.

A New Bossa, assim como a Bossa Nova em seu surgimento, é cercada de polêmica e nem sempre acatada pela crítica como movimento musical. Caracteriza-se pela união de elementos eletrônicos ao embalo rítmico da Bossa Nova. É preciso ressaltar, no entanto, que a New Bossa nem sempre traz elementos eletrônicos em sua composição. O novo trabalho de Clara Moreno, “Meu Samba Torto”, muito mais acústico, é um exemplo disso. O que define a New Bossa nos trabalhos é a atualidade e experimentalismo musical, ou com novas mixagens, ou mistura de estilos, como o samba e vertentes do jazz à Bossa Nova.

A polêmica que existe na classificação da New Bossa pela crítica gira em torno justamente dos aspectos eletrônicos assimilados em diversos trabalhos dessa nova geração. Parte da crítica classifica trabalhos que contenham estes elementos como Bossa Eletrônica e não New Bossa. Embora os termos e opiniões ainda não estejam definidos e muitas vezes o estilo seja mal visto, A New Bossa ganhou seu espaço no cenário da música como um movimento que resgata o balanço jazzístico da Bossa Nova, unindo-o aos elementos da tecnologia e outras possibilidades musicais.

De acordo com o jornalista e crítico musical Tárik de Souza, em artigo sobre a Bossa Nova para o site Clic Music, este gênero seria influência na década de 80 na própria Inglaterra, país do Smoke City, também para grupos como Style Council, Matt Bianco e Everything But the Girl. A tendência se apresenta ainda no trabalho de Cazuza (Faz Parte do Meu Show). Mais adiante, na década de 90, o acid jazz e o drum‘n’bass reabilitariam definitivamente o balanço da bossa trazendo novamente ao cenário musical versões desde João Donato e Marcos Valle a Joyce e Edu Lobo.

Em 1998, o próprio Marcos Valle, inspiração para a New Bossa, lança um álbum intitulado Nova Bossa Nova, e entra na onda do novo gênero. A música “Novo Visual” (New Look) traz elementos eletrônicos em sua partitura, mesclados ao balanço da Bossa Nova. Em 2001, o compositor, da chamada segunda geração - ao lado de Edu Lobo e Roberto Menescal - gravou ainda o álbum “Escape” (fugir ou fuga, tanto em inglês como português). A maioria das canções tem título em português e tradução para o inglês. O trabalho, segundo a revista eletrônica Bacana, é feito para gringo ver, por privilegiar o idioma e espaços estrangeiros, como na música “Lost In Tokyo Subway”.

Ninguém melhor para tornar-se um expoente do novo movimento que a filha do criador da Bossa Nova, Bebel Gilberto, em seu álbum de 2000, “Tanto Tempo”, que conta com a participação da vocalista de Smoke City, Nina Miranda, como já foi descrito anteriormente. Outros nomes aparecem em destaque, como as recém-lançadas Clara Moreno e Fernanda Porto, além de Marisa Monte, Carlinhos Brown e Nação Zumbi, que aderem ao movimento em muitos de seus trabalhos.

Apesar da formação desfeita, Smoke City sobrevive em seu Flying Away até os dias atuais como referência dessa nova tendência musical. O que garante a sua permanência é a boa combinação entre os elementos, a sonoridade das músicas e a voz doce e suave de Nina Miranda. A música título deste álbum não deixa de antecipar - e propiciar - uma agradável despedida da banda a seus fãs.

Flying Away – Smoke City


Goodbye sweet romance / I am flying away now / Goodbye sweet romance / I am flying away now / Estou num avião saindo fora embora / Estou num avião saindo fora pra cima / Estou num avião saindo fora Agora vou embora / Está na hora Bye bye bye / Je ne sais pas qu'est ce que c'est / Il faut que je parte mon avion va partir / Goodbye sweet romance / I am flying away now / Goodbye sweet romance / I am flying away now

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[1] Primeiro registro musical da banda, que traz a música "Underwater Love" (faixa que abre o álbum "Flying Away", lançado no Brasil em setembro de 1997). "Underwater Love" foi parar na trilha de um comercial da marca de jeans Levi's, que mostrava um homem sendo salvo por um grupo de sereias e garantiu à Smoke City a guinada de seu trabalho na Europa.
[2] Folha de S. Paulo – 9 de fevereiro de 1998 – “Nina faz Bossa Nova para inglês ver”
[3] Dan The automator é também conhecido por projetos como os Gorillaz, Handsome Boy Modelling School e Deltron 3030, pelos quais editou alguns dos melhores álbuns de finais de 90 e inicio do século XXI.
[4] Folha de S. Paulo – 9 de janeiro de 2007
[5] Folha de S. Paulo – 22 de dezembro de 2006 – “Nina Miranda cria conto de fadas sonoro”

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