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19 abril, 2007

O Toque do Olhar

Via um pedaço de um Deus nos olhos das pessoas. Daqueles próximos a si em alma, via uma luz sair dos olhos diante dos seus. Tivera momentos em que a luz fora tão forte que a cegara. Até que ponto a claridade ilumina ou cega? Não sabia. Esse era seu medo e seu segredo. Quantas vezes desviara o olhar com medo de enxergar o Deus novamente. Em um dos períodos de cegueira, a escuridão perdurou por quatro meses, acompanhada de lágrimas que não se sabia de onde vinham e por qual motivo. Não pôde sair de casa nesse período. Chorava e não via nada.

Passado o tumulto, o Deus do olhar das pessoas também sumiu. Não entendeu, mas foi um alívio. Seu fardo finalmente saíra de sua vida. Podia olhar nos olhos das pessoas sem cegar-se. Tudo perdeu um pouco do brilho – é fato -, pois sabia que esse olhar era também sua riqueza, mas o caminho tornou-se mais leve. Às vezes, procurava um Deus no olhar de alguém aqui ou acolá. Nada. Até que esqueceu. Esqueceu que um dia viu o Deus em olhares alheios. Rumou na escuridão da luz terrena com um sorriso de quem não sabe e com um olhar de quem tudo vê e pouco enxerga. Cegueira velada.

O conforto da conformidade de seu olhar foi então subitamente ameaçado quando ele apareceu. “Era quimera e parecia ser o amor. Era quimera. Graça flutuante, figurava estar sentada. A cabeça era magra, coberta de cachos, junquilhos, de onde o sol jorrava. As asas mantidas fechadas tocavam o chão, longas, emplumadas. O corpo intangível. Seus olhos, castanho verde cinza dourados e escarlates. Me olhavam como se fosse desde sempre. A límpida palavra. Era belo e assim se apresentava.” ("Pequeno Oratório do Poeta Para o Anjo" da escritora Neide Arcanjo)

Pela primeira vez, sem que ela soubesse, alguém vira o Deus nos seus olhos. Conversaram horas a fio sem que ele revelasse o que via diante de si. Ela não imaginava que seu olhar velado desvendava toda a luz de uma divindade. Alheia a isso, não pôde compreender quando ele revelou o fato. Subitamente, um mundo de confusão invadiu sua alma. Presente e passado, retomado em sua memória, misturavam-se em medo e ânsia por sentir novamente a luz de um Deus se manifestando diante de seus olhos. E agora os olhos eram os seus.

Então ele cegou-se. Um dia. De repente. Ela sabia que isso iria acontecer. Afastaram-se pois não podia mais vê-la, por mais que quisesse senti-lo. Insistiu, sem retorno. Seguia na rua desviando olhares com medo que vissem a luz de um Deus em seu. Ficaram assim por meses, ela desviando o olhar e ele tentando ver. Passaram pela vida. Ele recobrou a visão e ela voltou a olhar.

Reencontraram-se. Ao acaso. Poucas palavras do que existia antes havia restado. E evitavam olhar-se. Mas teve um único momento em que o olhar deles se encontrou. Encontro de verdade. Diante dele, os olhos dela começaram a marejar de lágrimas. “Era a beleza e parecia a beleza. Era a beleza. Filho pródigo abandonou a casa. De seus vestígios de musa. De seus lampejos de anjo. Brotaram todas as lágrimas. A dor, incrustada na curva da porta esperou por muito tempo a volta. Depois. No rubi deste coração. Escreveu seu nome.” ("Pequeno Oratório do Poeta Para o Anjo" da escritora Neide Arcanjo).

Mais humana, voltara a enxergar.

Domingo, Outubro 29, 2006

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