“Sidarta, porém, reembarcou na balsa.Ao regressar à cabana, recordava o pai, recordava o filho, escarnecido pelo rio, lutando com o próprio eu, à beira do desespero e, apesar disso, propenso a soltar gargalhadas, mofando de si mesmo e do mundo inteiro. Ai dele! A ferida ainda não se transformara em flor. O coração continuara a rebelar-se contra a sua alma. O seu sofrimento ainda não chegara a irradiar serenidade e triunfo. (...) Suavemente ressoava o canto de inúmeras vozes do rio. Sidarta olhava as águas e na corrente surgiam imagens (...) cada qual tinha os olhos fixos na sua meta; cada qual sofria. O rio cantava com voz plangente. Cantava saudades. Angustiado, dirigia-se à sua foz, e sua voz era melancólica. (...) Sidarta esforçou-se por aguçar os ouvidos. A imagem do pai, a sua própria e a do filho, todas elas se confundiam. Entremesclavam-se, tornavam-se rio e como tal fluíam em direção à meta, ávida, ansiosa, tristemente. E a voz do rio ressoava cheia de saudade, cheia de doloroso pesar, cheia de insaciável desejo. O rio rumava em direção à sua foz. Sidarta percebia a pressa daquela corrente formada por ele mesmo, pelos seus, por todos os homens que já se lhe havia deparado. Todas essas ondas e águas, carregadas de sofrimentos, precipitavam-se em busca de suas metas, que eram muitas, as cataratas, o lago, o estreito, o mar e, uma a uma, as metas eram alcançadas, mas a cada qual seguia outra; da água formava-se a bruma, que subia ao céu, transformava-se em chuva, a cair das alturas, virava fonte, virava regato, virava rio e novamente iniciava a sua jornada, novamente fluía rumo à meta. Mas a voz sôfrega acabava de mudar. Ainda ressoava plangente, inquiridora, porém se misturava com outras vozes, alegres e aflitas, boas e más, risonhas e entristecidas, centenas de vozes, milhares de vozes. (...) Quantas vezes não ouvira todos aqueles rumores, a multiplicidade das vozes que vinham do rio, mas naquele dia lhe pareciam novas. Já não era capaz de identificá-las.Não conseguia distinguir as vozes jubilosas das choronas, as infantis da másculas. Todas elas formavam uma só, a lamentação da nostalgia, a risada do ceticismo, o grito da cólera e o estertor da agonia. Tudo era uma e a mesma coisa. Tudo se entretecia, enredava-se, emaranhava-se mil vezes. E todo aquele conjunto, acima das vozes, a totalidade das metas, das ânsias, dos sofrimentos, das delícias todo o Bem e o Mal, esse conjunto era o mundo. Esse conjunto era o rio dos destinos, era a música da vida. Mas, quando ele escutava atentamente o que cantava o rio, com seu coro de mil vozes, quando se abstinha de destilar dele o sofrimento ou o riso, quando cessara de ligar a alma a determinada voz e de penetrar nela com o seu espírito, quando, pelo contrário, ouvia todas elas, a soma, a unidade, acontecia que a cantiga das milhares de vozes se resumia em uma só palavra, que era OM, a perfeição. (...) Sua ferida desabrochava como uma flor. Sua mágoa fulgia. Seu eu incorporava-se na unidade. Foi nessa hora que Sidarta cessou de lutar contra o seu destino. Cessou de sofrer. No seu rosto florescia aquela serenidade do saber, à qual não se opunha nenhuma vontade que conhece a perfeição, que está de acordo com o rio dos acontecimentos e o curso da vida, a serenidade que torna suas as penas e as ditas de todos, entregue à corrente, pertencente à unidade.”
Trecho de "Sidarta", de Hermann Hesse
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