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20 outubro, 2008

O laço da fita estampada

Ela pega bonita seu laço de fita. Põe no cabelo e sai à rua. Pensa na casa que deixou pra trás e toda a vida que a casa carrega com ela. É melhor que lá fique, a bagagem estava pesada demais. Anda pelas ruas a descobrir novos lugares com um novo olhar. Senta-se na praça, vê dois ou três tipos diferentes passar. Pensa consigo que realmente cada um tem seu destino, suas escolhas, seus percalços. É solitário viver num mundo tão cheio de gente. Não se conhece nem mesmo quem a gente conhece por toda uma vida. O que dirá ou outros. Não julga-se mais esperta, não julga-se mais inteligente, nem mais bonita. Nem mesmo com o laço de fita. Aliás, acredita que mais bonita é a fita. Mais até que o laço. Levanta-se e anda. Anda muito ultimamente. Isso torna a vida mais simples e prazerosa. Acredita.

O coração, vai limpando com o tempo. Para as novas paixões que a aguardam no virar da esquina. Precisou andar muito. Sozinha. Limpar coração depende de quem o tem. Acredita. Sente-se nova para a nova vida que a aguarda. Às vezes, um frio toma-lhe a barriga, mas em seguida, uma nova caminhada se faz necessário e não pode mais parar. Já tem uma certa idade. Não muita. Não tanto para não encantar-se novamente ao virar da esquina. Mas o suficiente para saber que se anda é pra frente. Liberta da dor e do medo. Há muito o que fazer agora e não há tempo para sentimentos amargos. Só dificultariam o caminho. Acredita.



Em uma das ruas, uma menina lhe chama a atenção. Não a menina, mas o olhar da menina. Percebe que encanta-lhe seu laço de fita. Os olhinhos não desgrudam de sua cabeça. A fita tem consigo pequena estampa de flores. Vem-lhe a certeza de que a fita é a mais bonita. Os olhos da menina seguem-lhe os passos. Não, os passos não. Os cabelos. A insistência daqueles olhinhos parecem irredutíveis. Percebe que aquele laço de fita não mais lhe pertence. Desfaz e dobra a fita. A menina dos olhinhos insistentes olha agora com certa curiosidade, talvez esperança. Aproxima-se. Dá-lhe o laço de fita e agora o rosto exibe mais que a expressão dos olhos. Um sorriso se abre.

- É para mim?
- Sim, é teu.
- Muito obrigada!

E desaparece numa corrida que mistura a felicidade à pressa de ver-se com o laço de fita. Encanto é algo que não deve ser quebrado. Pelo menos o das crianças. Se bem que encanto não deve ser quebrado nem para os que tem uma certa idade. Mas, com o tempo, a gente percebe que a solidão é maior num mundo cheio de gente. Que andar torna a vida mais simples e prazerosa. E que encanto se renova ao virar da esquina. Basta o encontro certo. Isso sim é o mais bonito. Acredita.

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