Quer dizer, nas quadras, contenta-se o eu-lírico com a idealização do amor, com o amor de almas. Mas nos tercetos o recusa e torna-se aristotélico, pois “como o acidente em seu sujeito” e “como a matéria simples busca a forma”, tal como, por exemplo, a água (=matéria) toma a forma do conteúdo do pote que ela preencher, quer a satisfação do amor carnal, material, corpóreo:
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mi[m] tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assi[m] coa minh’ alma se conforma,
Está no pensamento como idéia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.
Já o meta-soneto de Carlos Felipe Moisés retrata um amante contemporâneo, nada altivo, disperso, errando de amor em amor, sem pensar no passado, vivendo só o presente, “ausência, nada”.
Transforma-se o amador em coisa alguma,
sem dolo, sem virtude e sem razão.
Por muito amar, dispersa o coração
e rói daquilo que é a alma nenhuma
As esperanças perde, uma a uma,
de decifrar o rosto da paixão.
Sem rumo, ilhado entre o sim e o não,
se no amor de um mar sem espuma.
Transforma-se o amador em coisa errante,
atira ao vento um grito enrouquecido,
buscando se encontrar na coisa amada.
A pele rota, o gesto vacilante,
transforma-se, de amar como um perdido,
em sombra de si mesmo, ausência, nada.
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(*)referência:
Lucia Maria Moutinho Ribeiro (UNIRIO/FSJ)
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