O Anfitrião
Era o início da nossa viagem por uma realidade que inclui o Parthenon na Grécia, Osaka no Japão, o Louvre em Paris, além de uma passagem insólita pela Bolívia. Não sabíamos ainda, mas o grupo que encontraríamos era muito maior do que as dez pessoas que chegam à casa alaranjada com jardim enfeitado por estátuas gregas. Transportados no espaço, somos recebidos pelo anfitrião. Um homem alto com semblante austero, porém de uma serenidade que acolhe: Cyro Del Nero, que nos apresenta sua casa cheia das cores como as que nos contaria ter visto na Grécia. Na parte anterior, um ateliê onde ministra cursos de cenografia para alunos da Universidade de São Paulo. Uma grande mesa abriga maquetes e partes do que se tornarão marionetes, além de máscaras. O lugar respira arte. A casa é vidrada, o que a torna clara e ainda mais ampla. Somos encaminhados para uma sala posterior ao ateliê, na qual se daria a segunda etapa da nossa viagem. No local, o cheiro dos livros em estantes que cobrem duas paredes inebria.
Arquivos de metal ocupam a terceira parede e guardam preciosidades do mundo das artes que esperam adormecidas a realização de um sonho vivo do professor: a criação dos Museus da Televisão, do Teatro e da Moda, como nos revelaria durante a conversa. A quarta parede é forrada de máscaras com as mais variadas representações de diversas culturas. Cyro é professor titular da USP, cenógrafo, designer gráfico entre tantos outros talentos que desvenda sua experiência. Atuou como diretor de arte em diversos espetáculos teatrais, no cinema e na TV – passando por praticamente todas as emissoras, principalmente a Rede Globo de Televisão. Trabalhou ainda no mundo da Moda, também como diretor de arte, nos tempos de Denner e Clodovil. Um relato inicial de seu percurso suspende minha respiração por um instante. Estamos diante de uma pessoa que carrega consigo uma bagagem cheia de histórias da cultura do nosso País. Nesse momento, dou conta de que a importância desse dia seria maior do que havia imaginado.
Os passageiros
Além de nosso grupo de cerca de dez pessoas, estavam presentes na viagem Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, Bibi Ferreira, Cacilda Becker, Ruth Escobar, Gianfrancesco Guarnieri, Juca Chaves, Antonio Abujamra... A lista é extensa. Além do teatro, do cinema e da literatura, inclui personagens da TV e da Moda que se misturam em uma realidade única da cultura brasileira. Cyro tem uma vasta movimentação pelos ambientes dessas classes e intimidade com essa realidade tão mítica aos “mortais”. Os mitos realmente se confundem. Iniciando pelos gregos, sua narrativa é repleta de detalhes e curiosidades, como quando conta da primeira visita que fez ao Parthenon e seu deslumbramento diante do colorido da Grécia, onde esteve por mais de trinta vezes. Na trajetória, que transita pelas décadas de 60, 70 e 80 até os dias de hoje, as cenas se unem às transformações sociais e econômicas do País. Entre fatos e “causos”, ilustrados por fotografias projetadas em uma tela, ficamos sabendo de curiosidades como a viagem que fez até a Bolívia em seu Fusca para proteger Guarnieri e Juca Chaves da perseguição da ditadura. Seria pretensão revelar tudo o que foi dito nas prazerosas cinco horas do encontro. É preciso vivenciar a brilhante experiência da narrativa de Cyro. E sentir.“Minha mão sabe mais do que eu”
Na conversa, não poderia faltar o tema da aprendizagem. O professor da USP, que parou o estudo formal no segundo ano ginasial, é um autodidata. Seu relato inclui a surpresa com a qual recebeu o convite para lecionar na Escola de Comunicação e Artes (ECA), há mais de 20 anos. O professor não desaconselha a Academia e o Ensino Formal de forma alguma, mas ressalta a importância de dois ingredientes na formação profissional e humana: a curiosidade e o entusiasmo. Ao encerrar sua apresentação, retomou essas qualidades citando o pintor renascentista Rafael: “Minha mão sabe mais do que eu”. E reiterou que a ação é mais importante do que o pensamento. “Na dúvida, mova-se”. Passava das três da tarde e a sensação que permanecia era de “quero mais”. O tempo voou junto com as asas que Cyro Del Nero ofereceu para nossos pensamentos e emoções neste dia. Ao final, fica o brinde de suas palavras escritas no livro A Celebração do Dia (título providencial para o momento) e a possibilidade de fazer seus cursos e suas oficinas oferecidos no ateliê ou na Universidade. Mais ainda, ficam despertos e cutucados o entusiasmo e a curiosidade, além do agradecimento aos que porporcionaram essa experiência. Surpresas desta vida, que nos gratifica com momentos tão especiais e valiosos como o deste fim de semana.*Fotos por Leticia Olivares

2 comentários:
Cla, o post está o parfait! O seu texto me conduziu novamente em uma excursão pelo atelier, memórias e palavras do maravilhoso anfitrião Cyro Del Nero.
Parabéns pela narrativa!
beijos
Lê
interessante o blog e o lugar
se puder da uma passada no meu blog
o tema hj eh humor falando do humorista willmutt, q faz trotes para grandes empresas e bandas bem humoradas
http://t-crespi.blogspot.com
vlw
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