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01 março, 2015

Move

Passou por sinceros ardores, imensas dores, eternos amores e sobreviveu.
Confessa que carrega marcas de todos eles, em entranhas estranhas pela mutação chamada: Vida.
Senta-se com mais conforto. Sente-se mais absorta das influências que o mundo insiste em proclamar regras. Grita liberdade no fundo da alma. Estampa a palavra em frente a porta da casa. Pelo olho mágico, lê-se: liberdade. Mantém a magia dos pensamentos românticos de outras épocas em recônditos e inacessíveis espaços da alma. Não mais os acessa. Já sabe que não são para este mundo.

Nem para ela neste mundo. Não dá conta, não faz conta, não tem medida, não controla nada. Nada.
Livre do controle, sabe que não há espaço no mundo que comporte todo o amor que sente. Não é egoísmo, não é pretensão. E resignação, aceitação, reverência às limitações deste plano sem mapa.
Acha atalhos. Mas hoje, desvia. Segue em linhas curvas contínuas. Ama a continuidade, o próximo passo, a surpresa do desconhecido, o êxtase do inesperado.

Nisso não se corrige. Continua a idealista do delírio, da paixão, do coração trepidando no peito a quase saltar-lhe da boca. Precisa desses momentos, não como precisa de ar, mas como precisa da contemplação, Doses semanais, sentada ao sol, observando só o que for natureza. Ou enquanto anda.

Gosta do movimento mais do que em qualquer outra época da vida. Um vício relativamente novo que não quer largar. Segue amando, mesmo que não o saibam. Mesmo que em silêncio e para isso precisa do conforto de uma crença, mesmo que quando a cortina se abra isso se revele pura besteira cega da ilusão deste mundo. Crê que seus sentimentos vencem tempo e espaço quando, concentrada, convoca pessoas por pensamento e envia a elas seus sentimentos mais puros.

Continua vendo beleza nas coisas mais miúdas e simples, continua rindo sozinha de lembrar de momentos que passou na vida, mesmo que sua lembrança, melancolicamente, não tenha mais nomes. Não está mais a procura de quem é. Mas quer (e vai) conhecer o mundo, finalmente. Quer saber mais dos olhos que enxergam fora. Deixa o coração quieto embora precise da dose de delírio, paixão, do peito trepidando a quase saltar-lhe da boca o coração. Move-se. Mais leve. Menos concentrada. Mais livre. Move-se para o que sempre a aguardou: aquilo que ainda não sabe.

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